Com composição química usada em alvejantes, a solução, que é proibida pela Anvisa, traz sérios riscos à saúde. A agência reguladora diz que está fiscalizando com mais afinco a venda do produto na internet

Uma solução química vem chamando atenção de alguns pais de autistas, especialmente os mais severos, por ter a promessa de “curar” o autismo. A explicação seria que o líquido teria a capacidade de promover uma “desintoxicação de bactérias não identificáveis em exames” e metais pesados do organismo, que seriam os responsáveis por causar os sintomas do autismo. Conhecida pela sigla MMS (termo em inglês para Solução Mineral Milagrosa), a mistura química (à base de clorito de sódio e ácido cítrico) resulta no dióxido de cloro, poderoso alvejante usado, inclusive, pela indústria para fazer o branqueamento da madeira. A mistura é propagada desde 1996, quando o ex-cientologista americano Jim Hamble, diz tê-la descoberto e curado doenças como malária e HIV.

No Brasil, o assunto voltou a ser discutido com mais afinco nos últimos dias, depois que a jornalista Andrea Werner, ativista dos direitos da pessoa com deficiência, e mãe de Theo, 10, que é autista moderado, denunciou o livro “Curando os Sintomas Conhecidos como Autismo” (publicado no Brasil pela BV Books), escrito pela americana Kerri Rivera, que recomenda o uso do MMS. Várias livrarias retiraram os exemplares de suas prateleiras físicas e virtuais, enquanto os posts/denúncias de Andrea ganharam uma proporção maior. “A demanda foi tanta, que montamos uma equipe para receber relatos de pessoas que passaram pelo “tratamento” com MMS ou que sabiam de profissionais que recomendavam o uso. Além disso, iniciamos a campanha #foramms e gravei um vídeo explicativo sobre o assunto”, diz. O vídeo passa de 50 mil visualizações e foi compartilhado por mais de 2,7 mil pessoas. “Precisamos trabalhar para conscientizar os pais que acabaram de receber o diagnóstico dos filhos e são presas fáceis do charlatanismo”, diz Andrea.  A BV Books disse em nota passar por “perseguição”, uma vez que o título do livro não fala diretamente sobre a cura do autismo e sim sobre a cura dos sintomas dele. Disse ainda que a composição citada no livro é do clorito de sódio e não de um alvejante.  

Experimento feito com MMS comprado na internet: tecido azul escuro ficou claro em 10 minutos após receber a solução      (Foto: Arquivo Pessoal)

Experimento feito pela Andrea Werner com MMS que uma mãe comprou na internet: tecido azul escuro ficou claro em 10 minutos após receber a solução (Foto: Arquivo Pessoal)

Proibido pela Anvisa

Desde junho do ano passado a fabricação, distribuição e comercialização do MMS para cura do autismo (ou outras indicações para a saúde) é proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que não reconhece a fórmula para fins terapêuticos. No entanto, a solução era encontrada facilmente na internet. CRESCER cobrou um posicionamento da agência reguladora, que afirmou que essa comercialização é um crime contra a saúde pública, de acordo com o código penal. Até a última terça-feira (30) a Anvisa emitiu uma nota oficial em que afirmava que foram derrubados da plataforma Mercado Livre 160 anúncios, mas os vendedores ainda conseguiam criar novos anúncios. “O dióxido de cloro, comercializado com a sigla MMS, não tem aprovação como medicamento em nenhum lugar do mundo. A sua ingestão traz riscos imediatos e a longo prazo para os pacientes, principalmente em crianças”, diz o comunicado.

Maria José*, mãe de um autista não verbal, conheceu de perto esses riscos. Em entrevista à CRESCER, ela contou que conheceu a substância após procurar uma psiquiatra renomada da capital de São Paulo, que insistiu no “tratamento”.

Após um pouco de resistência e até de questionar a médica sobre o real conteúdo do líquido, Maria foi convencida e iniciou o uso nela e no filho: “A médica afirmou que o MMS também era bom para a saúde de forma geral. Então decidi tomar, até como forma de “garantia”, pois se eu me sentisse mal, interromperia o uso no meu filho também. Senti alguns desconfortos, como se estivesse com uma virose, mas ao procurar a médica ela me tranquilizou dizendo que aquilo fazia parte do protocolo. Só que no sétimo dia, quando a dose aumentou para três gotas de cada substância, diluídas em 1 litro de água, passei pelo maior desespero da minha vida: meu filho ficou extremamente irritado, confuso e começou a convulsionar. Ele teve uma parada cardiorrespiratória, ficando alguns instantes sem respirar. Felizmente ele voltou à consciência. Tenho plena convicção que foi resultado do MMS”, relata.

Frascos de MMS (Foto: Divulgação)

Frascos de MMS (Foto: Divulgação)

Perigo potencial

O resultado da ingestão ou do uso via retal do MMS pode causar vômito, diarreia, desidratação, prostração e irritação e lesão das mucosas do organismo. “Por onde essa substância química passa há uma destruição de células e tecidos, matando ainda milhares de bactérias, inclusive as boas, que têm papel importante no funcionamento do organismo. O MMS pode causar ainda insuficiência renal, gastrites e úlceras graves”, alerta o infectologista Paulo Olzon, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). A pediatra e homeopata Geórgia Fonseca, coordenadora do Ambulatório de Homeopatia em Autismo da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, que é mãe de uma jovem autista de 18 anos atendeu um paciente com problemas gástricos e de sangue decorrentes do MMS e considera o “tratamento” um despropósito: “Não há absolutamente nenhuma evidência científica que o autismo seja causado por patógenos ou parasitas, e absolutamente nenhuma publicação científica séria que nos leve a crer que esta substância branqueadora, que pode trazer perigo à saúde das crianças, possa curar o autismo”, diz.

O Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador de saúde dos Estados Unidos, divulgou em seu site oficial um comunicado sobre o MMS para cura do autismo “perigo potencial embutido em técnicas, terapias e tratamentos com a promessa de curar o autismo. “O MMS (dióxido de cloro) tem sido comercializado como um tratamento para autismo ou sintomas relacionados ao autismo, mas não se mostrou seguro e eficaz para tais usos”, diz. 

O professor da Faculdade de Medicina Alysson R. Muotri e diretor do Programa de Células-tronco da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, que é um estudioso do TEA, diz: “Desconheço trabalhos cientificos sérios que mostrem a eficácia do MMS como tratamento para autismo”, diz o neurocientista, que é também co-fundador do TISMOO, laboratório exclusivamente dedicado à medicina personalizada com foco TEA e outros transtornos neurológicos de origem genética.

Prática criminosa
A advogada Adriana Monteiro da Silva, consultora em direitos de pessoas com deficiência, e mãe de Ana Luísa, 18, que é autista, afirma que o uso do MMS para fins terapêuticos é uma prática criminosa, que se encaixa no artigo 5º da Lei Brasileira de Inclusão, que define: “A pessoa com deficiência será protegida de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, tortura, crueldade, opressão e tratamento desumano ou degradante […] são considerados especialmente vulneráveis a criança, o adolescente, a mulher e o idoso, com deficiência.” Segundo ela, o uso do MMS, seja para ingestão ou uso via retal, pode ser inferido como crime no artigo 88 da mesma Lei, com pena de reclusão de um a três anos, e multa. A Constituição Federal, em seu artigo 5º, parágrafo III também considera que: “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante. “O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), no artigo 18 também é claro ao enfatizar que pais, mães e responsáveis que sujeitem crianças e adolescentes a tratamentos degradantes estão sujeitos às sanções cabíveis no campo criminal e ainda ao encaminhamento da criança ou do adolescente a programa de acolhimento e até perda da guarda ou pátrio poder”, diz a advogada. 

Fonte: revistacrescer.globo

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