Quando comento que a Gabriela é autista, já escutei várias vezes a seguinte frase: “mas autistas são muito inteligentes”. É uma sensação de que a pessoa está querendo me consolar, me mostrando um ponto positivo, ou me mostrando que ela mesma é capaz de ver um ponto positivo em “ser autista”. Sei que as pessoas não fazem isso por mal, pelo contrário, é uma maneira de demonstrar empatia, afeto ou aceitação. Todavia, em tempos onde o autismo tem sido tão levado a público, acho necessário refletirmos sobre o que esse “mas” e esse “ser inteligente” significam.

Não é preciso compensação por ser autista. Temos que tirar esse “mas” da nossa equação de avaliação da criança. Ser autista é ser diferente. E, pensando bem, quem não é diferente? Assim, é certo dizer que diferente é normal. Vejam, não estou dizendo que um filho autista não dispenda mais cuidados que uma criança “típica”. Criar um filho autista é mais difícil, mas isso não quer dizer que não é incrível ser mãe dessa criança. Aliamos demais o “fácil” com o “bom”, embora as coisas mais importantes da vida não precisem ser fáceis para serem boas.

Como mãe de uma criança autista, eu entendo que as pessoas que não conhecem meu dia a dia, não conhecem sobre autismo, queiram me tentar fazer enxergar um “lado positivo”, uma compensação. Muitos ainda pensam que o autismo me tirou algo. Não tirou. Eu vivo todo dia a plenitude ser mãe e, com isso, todas as alegrias e medos que a maternidade pode trazer. Não há nada a ser compensado, nada a ser devolvido.

As dificuldades adicionais que o autismo traz ao exercício da maternidade ou paternidade não exigem um “mas”. Se quiser me ajudar a carregar minha sacola enquanto intervenho em um comportamento inadequado de minha filha, agradeço muito. Ter mais tolerância com uma maior demora de minha pequena para adequar-se à nossa sociedade também será de grande valor. E posso dizer que essa é a compreensão que pais de crianças autistas esperam. Sem consolo, sem pena, apenas a atenção ao fato de que lutamos pelo respeito à diferença em um mundo onde tudo parece conspirar pela tentativa de padronização do que é aceito e do que é rechaçado.

E quanto à ideia de que autistas são mais inteligentes ou até geniais? Alguns autistas apresentam, sim, QI (coeficiente de inteligência) mais elevado que a média, mas não é a maioria. Fomos criados em uma sociedade que idolatra casos como: “é autista, não fala, não interage, mas é um gênio do piano”. E eu me pergunto: mas será que é mais feliz sendo um gênio disso ou daquilo? Faz diferença no final das contas? Acho que o que precisamos refletir é sobre o que é essa tal “inteligência” e essa tal “genialidade”. Temos por natureza considerar inteligente aquele que é bem sucedido em sua profissão, ou aquele que domina bem o que é aprendido na educação formal. Entretanto, há muitas formas diferentes de inteligência.

Pare para notar… Toda pessoa que você considera inteligente é uma pessoa que consegue enxergar uma solução, uma saída, um aspecto ou uma resposta que você não foi capaz de encontrar sozinho. Autistas são capazes de enxergar o mundo de uma maneira que não conseguimos e, por isso, sempre enxergarão coisas que não podemos ver. Por outro lado, o contrário é verdadeiro: pessoas típicas têm uma percepção para certas coisas que não são alcançadas pela maioria dos autistas. E, resumindo essa bagunça textual: talvez inteligência seja o que falta em nós e sobra no outro e, portanto, só faz sentido quando analisamos alguém em relação a nós mesmos ou outro alguém, e sobre um ponto específico.

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Assim, todos nós temos inteligências próprias. Uns têm ótima inteligência social, outros aprendem com facilidade questões mais objetivas ou matemáticas, outros têm uma incrível inteligência afetiva. Albert Einstein disse “se enxerguei mais longe foi porque me apoiei em ombros de gigantes”. Talvez essa tenha sido a maior descoberta de tal gênio da Física: precisamos dos outros, dos olhares dos outros, da inteligência dos outros para complementar a nossa própria. Todos somos “mais inteligentes” em certo grau. Mesmo o autista mais clássico é mais inteligente em algum ponto que talvez apenas não tenhamos acesso pela nossa limitada capacidade de compreendê-los. Inteligente é quem ensina, e toda criança, autista ou não, tem muito a nos ensinar.

Fonte: gazetadopovo

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