Eu tenho 1,57cm (oi, aqui é a Patcamargo). Durante muitos anos da minha infância, eu era uma das mais altas da turma. Mas em algum momento entre a 3a. e 4a. séries do primário (os atuais 2o. e 3o. anos do fundamental) eu fui ficando “para trás” dos meus amigos. E nem por isso eu deixei de brincar. Ser baixinha significou algumas superações na hora de jogar volei ou brincar de basquete e até de alcançar o fundo da piscina. Mas eu sempre dei um jeito. E quando a altura fazia diferença mesmo, bom, eu brincava de outra coisa. Não me lembro de ter ficado um dia brincando sozinha por causa disso.

E como eu, cada um de nós tem uma “deficiência física”. Alguns mais gordos, outros altos demais para fazer uma cambalhota descente, outros usando fixadores nas pernas ou cadeiras de rodas. “Ahhh, mas não dá para comparar ter pouca altura com estar em uma cadeira de rodas!”. Dá sim. Dá quando a gente enxerga a pessoa a partir de todas as suas características físicas e não só por uma delas. Porque se olhamos só para as diferenças físicas tenho certeza que muitos de nós estaríamos fadados a ficar em casa, sem fazer nada, já que estamos fora de um padrão estabelecido eu sei lá onde e sei lá porque. As brincadeiras que ultrapassam as deficiências físicas estão em toda parte.

A brincadeira sem limites de deficiências - barbie cadeirante

Hoje eu vou dar algumas dicas de como uma brincadeira pode ser universal e acessível às crianças que têm uma deficiência ou dificuldade em sua locomoção. Muito do que está aqui foi tirado de textos de pesquisas científicas sobre o assunto e do Guia do Brincar Inclusivo, feito pela Unicef. Como diz a abertura do guia, “você vai ver: incluir é bem mais simples do que parece e torna a brincadeira muito mais divertida!”

Planejar, sim, mas sem prever tudo

Foi publicada recentemente uma reportagem no Catraquinha sobre um garoto que além de apoiar o amigo em todas as brincadeiras, acabou conseguindo fundos pela internet para comprar ao colega uma cadeira nova, que permitiria mais mobilidade. Olha aqui a imagem dos dois brincando juntos.

Best-Buddies-Kamden-Houshan-and-Paul-Burnett-Jenny-Burnett Reprodução:Good News Network:Jenny Burnett

Então, a primeira coisa que vocês pais, amigos e familiares precisam saber é que as crianças, elas mesmas, têm a capacidade de agir para que o amigo seja incluído nas brincadeiras, adaptando as regras ou não, de uma forma muito mais natural. O segredo é, de novo, tratar as características da deficiência como uma entre outras diversas características das crianças.

A segunda coisa vai para todos os pais e mães: eduque seu filho para que ele saiba brincar, tenha um “estoque” grande de brincadeiras e entenda que uma brincadeira, mesmo aquela com regras, pode ser mudada e adaptada a nosso bel prazer, sem prejuízo nenhum para a diversão. Desta forma, seu filho será uma criança com capacidade, criatividade e jogo de cintura para enxergar além de qualquer possível barreira e ser um ser humano inclusivo.

Para ajudá-los a conhecer mais e mais brincadeiras, além dos nossos posts, temos também um E-Book gratuito criado especialmente para responder perguntas sobre como trabalhar a brincadeira e os brinquedos para crianças com deficiência, que você pode ler e consultar onde estiver. Fazendo um cadastro você tem acesso a dicas e informações importantes para tratar a brincadeira de forma inclusiva para as crianças com deficiência, podendo ser consultado onde você estiver. Para conhecer nosso e-book basta clicar aqui.

E por fim, planejar, claro é importante. Mas você jamais será capaz de prever todas as variantes que podem acontecer num dia de uma criança. Já pensou, por exemplo, que pode ser um dia de mau humor, como qualquer um de nós tem? Então, não se frustre se uma atividade planejada não foi pelo caminho que você pensou. Isso não quer dizer que tenha dado errado. Aproveite para simplesmente conduzir e deixar que o grupo resolva a situação sozinho, seja propondo outra adaptação, seja trocando a brincadeira ou o brinquedo.

Nos casos de crianças com de ciência física, há algumas adaptações simples, como prender o brinquedo no braço, usar materiais que não deslizam facilmente e pedir a alguém que movimente a cadeira de rodas durante o brincar. Deixar a criança interagir com os brinquedos é essencial para que você possa observar quais mudanças e adaptações são necessárias em cada situação.

Alguns exemplos de brincadeiras com uma possível adaptação:

Cesta

Um galão de água com o fundo cortado e a alça preservada torna-se uma cesta. Pinte-a para deixá-la bem colorida. Uma ou mais crianças arremessam a bola, que deve ser apanhada por quem segura o objeto (use bola com guizo para as crianças com de ciência visual). No caso de alguém com o movimento dos braços reduzido, é possível amarrar a cesta à cadeira de rodas ou ao braço, por exemplo. Um colega pode ajudar na brincadeira ao movimentar a cadeira de rodas ou a própria cesta.

Caixa dos sentidos

Faça dois buracos na lateral de uma caixa de papelão para permitir que as mãos acessem seu interior. Deposite um ou mais objetos e feche. O jogador precisa tatear, ouvir e até cheirar para adivinhar o que tem ali. Ganha quem descobrir tudo (deixe o tempo de contagem flexível, pois crianças com de ciência intelectual podem levar mais tempo
para brincar). Quando houver uma pessoa com deficiência física , por exemplo, que não fala, use comunicação alternativa, como placas ou letras móveis.

Piscina de bolinhas

As crianças se sentem muito bem nesse brinquedo, pois as bolinhas coloridas e macias estimulam os sentidos e acalmam. Aquelas com de ciência física podem precisar da ajuda de um colega ou do educador para se acomodarem. Importante: nas brincadeiras em que é preciso tirar a criança da cadeira de rodas, peça sempre orientação de como fazer isso à família ou ao profissional de saúde que cuida da criança.

Para tornar inclusivas as brincadeiras, bastam algumas mudanças nas regras ou nos acessórios utilizados. Muitas vezes, quando uma criança com deficiência participa, é preciso estimular o espírito colaborativo em todos. Por exemplo: é possível que um amigo empurre a cadeira de rodas ou ajude a criança com deficiência física a realizar certos movimentos.

Brincadeira surpreendente

Em uma palestra sobre deficiência e o brincar que assisti, a palestrante comentou sobre o caso de uma menina que sempre pedia aos pais para brincar na casa de uma colega paraplégica. Ela ficava horas brincando e voltava feliz e satisfeita. Os pais se intrigavam curiosos em saber como, afinal, as meninas brincavam. Um dia, resolveram perguntar: “de boneca, ué”, foi a resposta simples, como toda criança. Às vezes, quem complica somos nós 😉

Fui ao zoológico

Uma criança, andando na parte interna da roda, diz: “Fui ao zoológico e vi uma girafa!” ou “Fui ao zoológico e vi um elefante!”. Em seguida, aponta para uma das crianças que, junto com os colegas ao lado, precisa “criar” o animal escolhido pelo colega (elefante ou girafa). Quem se atrapalhar na hora de criar o bicho e errar entra na roda e passa a apontar. Se a criança tiver movimentos reduzidos, um colega pode ajudá-la a mover os braços, por exemplo.

Dado de histórias

Confeccione dados grandes, feitos de papelão. Em cada face,coloque desenhos em alto relevo (e o nome escrito e em braile) das imagens.
Cada dado pode ter um tipo de informação em suas faces: animais, verbos, objetos, pessoas, adjetivos, lugares… Quando a criança lança o dado, precisa inventar na hora uma história que contenha o objeto descrito.
A complexidade das histórias aumenta se dois ou mais dados forem combinados.

Jogos de tabuleiro

No caso de crianças com dificuldade de mobilidade, é possível que o educador ou um colega vire a carta, ande com o pino, jogue os dados ou faça as jogadas. Por exemplo, em um jogo da memória, funcionaria assim: a pessoa vai apontando as cartas desde o início e, quando a criança escolhe, ela pisca ou fala. Daí, o ajudante vira a carta.
Para revelar a segunda peça, o ajudante recomeça os apontamentos até a sinalização da nova carta, até se formarem os pares.

Viu como é possível? Sem traumas ou crises?

A brincadeira sem limites de deficiências - cadeirante brincando

No guia há algumas sugestões importantes ao propor brincadeiras inclusivas:

.Estimular as crianças a ajudarem quem tem mobilidade reduzida
e outras dificuldades;

.Usar bolas com guizos e objetos sonoros;

.Garantir piso plano para a circulação de cadeira de rodas no ambiente;

.Respeitar a criança com hipersensibilidade tátil ou visual (realizar as atividades no ritmo dela);

.Criar brinquedos que explorem figuras, cores, cheiros, texturas e sons;

.Perguntar sempre à família e ao profissional de saúde se há restrições no brincar;

.Ensinar às famílias as brincadeiras para que brinquem em casa com os filhos;

.Nos jogos com cartas, usar o segurador de cartas para crianças com de ciência física;

.Interferir quando alguém estiver excluído da brincadeira;

.Não permitir manifestações discriminatórias no grupo;

.Oferecer brincadeiras que quebrem preconceitos em relação ao gênero;

.Privilegiar atividades que valorizem as capacidades (e não as dificuldades) de cada um.

Fonte: tempojunto

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