Pessoas com autismo apaixonam-se. Elas casam-se. Elas até mantêm relações sexuais. No entanto, essas necessidades profundamente humanas foram ignoradas pelos cientistas. Pouco é falado sobre a relação do autismo e sexualidade.

Conhecendo a história de Stephen Shore

Muito do que Stephen Shore sabe sobre romance foi aprendido no corredor de autoajuda de uma livraria, perto do campus Amherst, da Universidade de Massachusetts.

Na faculdade, Shore, que tem autismo, começou a se perguntar se as mulheres falavam uma língua que ele não compreendia.

As primeiras experiências de Shore

Talvez isso explicasse o comportamento desconcertante de uma ex-aluna de massagem com quem ele trocou sessões de shiatsu e que acabou lhe dizendo que esperava mais do que uma massagem nas costas.

Ou a mulher que ele conheceu em uma aula no verão, que havia assumido que era a sua namorada, porque eles passavam a maior parte das noites cozinhando e frequentemente dividiam a cama. Olhando para trás, os sinais de interesse romântico de outras pessoas quase sempre se perdiam na tradução.

A teoria e a experiência

Shore buscou entendimento nas prateleiras de livros de autoajuda para aprender a linguagem não falada do amor: ele debruçou-se sobre capítulos de livros de linguagem corporal, expressão facial e comunicação não verbal.

Quando ele conheceu Liu

Quando conheceu Yi Liu, uma mulher que frequentava a sua aula de teoria musical da pós-graduação na Universidade de Boston, ele estava mais bem preparado. Em um dia de verão de 1989, sentados lado a lado na praia, Liu se inclinou e beijou Shore nos lábios. Ela abraçou-o e, em seguida, segurou a sua mão enquanto olhavam para o mar.

“Baseado em minhas pesquisas”, ele diz, “eu sabia que se uma mulher te abraçar, te beijar e segurar a sua mão ao mesmo tempo, ela quer ser a sua namorada; é melhor que você tenha uma resposta de imediato.”

O casal casou-se um ano depois, em uma tarde ensolarada, em junho de 1990.

Status do relacionamento:

Shore foi diagnosticado com autismo por volta dos 3 anos. Cerca de um ano depois de perder as suas poucas palavras e começar a ter rompantes.

Os médicos aconselharam os seus pais a colocá-lo em uma instituição. Em vez disso, eles imergiram-no em atividades de música e movimento. Além disso, imitavam os seus sons e comportamentos para ajudá-lo a se tornar consciente de si mesmo e dos outros.

Ele começou a falar novamente aos 4 anos e acabou recuperando algumas das habilidades sociais que havia perdido.

O amor

Shore, agora com 55 anos, lembra dos seus colegas de classe no ensino fundamental e médio, mas na época ele não entendia o fascínio do amor.

“Eu realmente não conseguia entender”, ele diz.

Os relacionamentos amorosos para pessoas com autismo

A sociedade ensina às pessoas com autismo desde cedo que são incapazes de amar, diz Jessica Penwell Barnett, professora assistente de estudos de sexualidade do programa Estudos sobre Sexualidade, Gênero e Mulheres da Wright State University, em Dayton, Ohio.

O estereótipo

Barnett conduz sessões de educação sexual para estudantes universitários com autismo. “O estereótipo de crianças com autismo como robôs frios e sem emoção é doloroso, difuso e totalmente enganador”, ela diz.

“Alguns estão muito conscientes dessa representação social. É como uma nuvem que paira sobre todos os seus pensamentos em relação a poderem estar em um relacionamento, ou se outra pessoa vai querer estar com eles.”

A realidade

De fato, muitas pessoas com autismo desejam e mantêm relacionamentos duradouros. “Não há incompatibilidade em estar no espectro e estar em um relacionamento romântico, estar apaixonado, ser parte de um compromisso”, diz Barnett.

Como Shore, estima-se que 47% dos adultos com a doença compartilham a sua casa – e a sua vida – com um parceiro romântico.

Contudo, isso não significa necessariamente que os relacionamentos são fáceis para as pessoas no espectro.

As controvérsias

Algumas características do autismo, como a inflexibilidade, a ansiedade, a sobrecarga sensorial, a dificuldade de comunicar as próprias necessidades e os limites dos outros – e sentir os outros – parecem atrapalhar os relacionamentos.

Mas esse pensamento é baseado quase inteiramente em conjecturas. Os cientistas demoraram a estudar como e por que as pessoas com autismo apresentam relacionamentos satisfatórios.

Até esta década, muitos adultos com autismo não eram diagnosticados e aqueles que tinham a proeza social de forjar relacionamentos românticos eram considerados “extremamente raros”, diz Matthew Lerner, professor assistente de Psicologia, Psiquiatria e Pediatria da Stony Brook University, em Nova Iorque.

Um retrato realista

Conforme que esse estereótipo vai desaparecendo, os pesquisadores estão se esforçando para montar um retrato realista do romance e da relação do autismo e sexualidade.

Por meio de pequenos estudos e evidências, eles agora têm conhecimento de poucos fatos:

  • Há muito mais pessoas com autismo que desejam relacionamentos românticos do que aquelas que os alcançam;
  • As características do autismo, como o pensamento rígido, a ansiedade e o constrangimento social, podem criar barreiras ao namoro, ao sexo e aos relacionamentos; as variações de gênero, incluindo gêneros não binários e bissexualidade, são mais comuns entre pessoas com autismo do que na população geral.

Os estudos sobre o assunto

Tendo identificado alguns problemas, os pesquisadores ainda estão tentando descobrir qual é a melhor forma de ajudar as pessoas com autismo a alcançar relacionamentos duradouros.

“Isso se tornou uma espécie de superprioridade”, diz Lerner. “É uma das áreas com talvez a maior lacuna – eu diria até que é a área com a maior lacuna – entre interesse e necessidade da comunidade e pesquisa empírica.”

Autismo e sexualidade: os dilemas do namoro:

Para a maioria das pessoas, uma vida amorosa saudável melhora a saúde psicológica e promove uma sensação geral de bem-estar. Dessa forma, até mesmo a depressão e ansiedade tendem a diminuir em mulheres com relacionamentos satisfatórios.

Os cientistas dizem que esses mesmos benefícios se aplicam às pessoas com autismo. Sendo assim, quando há a falta de relacionamentos românticos, uma parte fundamental da saúde social e emocional também desaparece.

As consequências dessa dificuldade

Isso pode gerar uma sensação de isolamento: depressão e ansiedade são mais de três vezes mais comuns em adultos com autismo do que em pessoas sem essa condição.

“Há um grande problema com a solidão nessa população”, diz Katherine Gotham, psicóloga clínica do Centro Médico da Vanderbilt University, em Nashville, Tennessee.

Primeiro passo para resolver este problema: namoro.

As complexidades do namoro – iniciar uma conversa com um estranho ou tentar avaliar o interesse de outra pessoa com base na linguagem corporal ou nas expressões faciais, por exemplo – não são específicas para pessoas com autismo, mas são mais difíceis para as pessoas com a condição.

“Todos nós temos os mesmos tipos de dificuldades, mas as pessoas com autismo têm ainda mais dificuldades”, diz Barnett. “As diferenças são uma questão de grau, não de tipo.”

Fatores culturais podem complicar o flerte

Nos Estados Unidos, por exemplo, os encontros geralmente ocorrem em bares barulhentos, restaurantes movimentados ou cinemas com sons altos. Esses ambientes podem piorar a ansiedade e até mesmo ser dolorosos para as pessoas com sensibilidade sensorial.

Outra complicação é que a maioria das pessoas tende a ter um certo “tipo” predileto. Por exemplo, pode ser homens com barba ou mulheres altas.

Mas as pessoas com autismo às vezes não querem se comprometer, diz Gotham.

“Consigo pensar em cinco pessoas que estão frustradas porque não têm o que querem”, ela diz. O problema é que essas pessoas não querem apenas alguém com quem possam conectar-se, mas alguém com uma lista específica de atributos. Essa rigidez pode diminuir as perspectivas de namoro.

O exemplo de Dave

Dave, um homem solteiro que mora em Nashville, Tennessee, diz que durante a maior parte da sua vida sentiu-se ansioso ao interagir com mulheres (Dave pediu que o seu sobrenome não fosse usado).

Ele teve alguns relacionamentos românticos. Mas o que realmente queria era uma namorada que se parecesse com alguém como a atriz norte-americana Jennifer Aniston. Ele não queria se contentar com nada menos do que isso. Ele argumentou que, por não ter uma namorada que se encaixasse nessa descrição, devia ter feito algo errado.

O verdadeiro motivo

Dave atribuía as suas dificuldades a uma deficiência auditiva, a sua aparência física e à falta de mulheres com a aparência de Jennifer Aniston em sua região. Até que foi diagnosticado aos 45 anos, e ele diz “Nunca me ocorreu que fosse autismo.”

Depois que Dave foi diagnosticado, o seu terapeuta ajudou-o a aprimorar as suas habilidades sociais. Em pouco tempo, ele aprendeu algumas regras básicas para as conversas casuais, como se revezar durante uma conversa e escolher tópicos nos quais ambas as pessoas estivessem interessadas.

As dificuldades do flerte

As nuances e sutilezas do flerte podem ser especialmente confusas para as pessoas que têm dificuldade em reconhecer pistas sociais.

É uma das experiências sociais mais desafiadoras que as pessoas com autismo enfrentam, pois “namorar envolve flertar, depende de muitos comportamentos não verbais”, diz Barnett. “Você não diz algo que está pensando do jeito que está pensando.”

As diferenças para as mulheres

No ano passado, uma equipe de pesquisadores da University College London relatou que as mulheres com autismo tendem a ignorar sinais sutis que demonstram o interesse do homem e imitam o comportamento de flerte dos homens sem querer.

Cerca de um terço das mulheres do estudo disseram que não notaram que as interações platônicas transformavam-se em algo mais sexualmente carregado. De modo que, muitas vezes, elas encontravam-se afastando investidas indesejadas.

A experiência de Shore

Para Shore, também, a dificuldade de reconhecer pistas sociais colocou-o no seu primeiro encontro romântico antes mesmo de perceber o que estava acontecendo.

Após o seu primeiro ano de faculdade, Shore começou a passar longas horas com uma mulher que conheceu durante as aulas de verão – conversando, cozinhando e assistindo filmes.

“Então, certo dia ela me disse que realmente adorava abraços e massagens nas costas”, lembra Shore. “Eu me lembro de dormir em sua casa, dividir uma cama, e foi exatamente isso que fizemos. Em seguida, ela pareceu ter ficado bastante chateada.”

Compreensão diferenciada

Durante uma longa conversa, Shore percebeu que a mulher queria ser sua namorada. Porém, ele não estava interessado em namorar. Logo, o casal separou-se. Mas a experiência despertou a curiosidade de Shore sobre as pistas sociais.

“Aquilo me sugeriu a existência de toda essa área de comunicação que chamamos de não verbal e tornou-se fascinante para mim”, ele diz. Ele começou a passar longas horas em livrarias e bibliotecas.

O guia das namoradas para um romance:

Enquanto Shore lia livros para aprender a detectar um romance promissor, Amy Gravino apoiou-se principalmente em Hollywood para decodificar as regras de relacionamentos de longo prazo.

Como muitas mulheres com autismo, Gravino, por diversas vezes, mascarava as suas dificuldades sociais adotando os maneirismos das mulheres neurotípicas.

Sendo assim, quando teve o seu primeiro relacionamento, aos 19 anos, ela imitava as namoradas que tinha visto em programas de televisão e filmes.

“O papel de uma namorada”

“Eu não fazia ideia do que estava fazendo”, ela diz. “A única coisa que eu sabia era fazer o papel de uma namorada – o que eu achava que uma namorada deveria fazer: eu deveria rir das piadas dele, mesmo que não fossem engraçadas; eu deveria conhecer os pais dele”. Olhando para trás, ela diz “Eu não percebi que só precisava ser eu mesma.”

Gravino diz que achou difícil estabelecer uma ligação profunda com o parceiro. Em parte porque não se sentia à vontade sendo ela mesma. Consequentemente, o relacionamento durou alguns meses antes de finalmente terminar.

A dificuldade em manter a relação

Sua experiência não é incomum, dizem os pesquisadores. Para as pessoas com autismo, desenvolver uma conexão emocional profunda e duradoura é mais difícil do que atrair um parceiro.

A explicação para isso

Isso pode ser porque um relacionamento forte depende de os parceiros serem tanto autoconscientes, quanto conscientes dos outros, mantendo a estabilidade emocional e sendo capazes de aprender com as experiências passadas.

Esses são três domínios que se mostram desafiadores para algumas pessoas com autismo, diz Lerner.

Amizades X relacionamentos românticos

Entretanto, a condição não impede necessariamente que as crianças formem amizades profundas, como a equipe de Lerner descobriu no ano passado depois de analisar a literatura – um total de 18 estudos – sobre amizades de meninos com autismo.

Mas isso pode restringir a profundidade e proximidade dessas amizades – uma descoberta que não augura nada de bom para relacionamentos românticos mais tarde na vida.

Os relacionamentos entre pessoas com autismo e neurotípicos

Relacionamentos entre uma pessoa com autismo e uma pessoa neurotípica muitas vezes vacilam sobre um problema específico: a “qualidade de ser capaz”, um preconceito inconsciente ou evidente para pessoas consideradas socialmente ou fisicamente “capazes”.

Isto é, pode ser difícil para um parceiro neurotípico “entender como é viver em um mundo como uma pessoa no espectro, respeitar isso e enxergar [seu parceiro] como uma pessoa inteira”, diz Barnett.

Por isso, às vezes, relacionamentos de longo prazo sejam mais fáceis de manter quando ambos os parceiros apresentam autismo.

A facilidade de relacionamento entre autistas

A pesquisa de Barnett sugere que as pessoas no espectro geralmente aceitam as peculiaridades umas das outras – um desejo por toque profundo, digamos, ou nenhum toque.

“Elas achavam que os seus relacionamentos eram de melhor qualidade quando o parceiro estava no espectro, pois elas sentiam-se como se o parceiro realmente as entendesse”, ela diz.

Essas observações coincidem com as de um estudo com 26.000 adultos com autismo e 130.000 controles na Suécia, que descobriu que a maioria das pessoas com autismo prefere parceiros no espectro.

A explicação para essa preferência

As pessoas com autismo que formam relacionamentos de longo prazo bem-sucedidos são aquelas que aprenderam a negociar acordos que respeitem as suas necessidades.

Seja um período prolongado de silêncio após o trabalho, um relacionamento com carinho, mas sem sexo, ou mesmo uma casa pouco decorada que evite uma sobrecarga sensorial.

O primeiro relacionamento de Shore durou pouco mais de dois anos.

Seu segundo terminou depois de apenas seis meses, quando descobriu que a sua namorada gostava de adormecer ao som de rock. Shore, que estudou educação musical na faculdade, achou a música muito perturbadora. Portanto, as preferências de sono incompatíveis do casal terminaram com o relacionamento.

Assuntos sensíveis

Além de namorar e amar, a satisfação sexual – sozinha ou com um parceiro – é importante para o bem-estar. Mas apenas poucos estudos exploraram a natureza das experiências sexuais de pessoas no espectro.

“A sexualidade não é um tabu na comunidade de pesquisa, mas ainda é o último tópico da discussão. O que não é realmente justo porque pode ser fundamental para entender a qualidade de vida e a saúde emocional das pessoas com autismo”, diz Gotham.

A experiência de Shore sobre autismo e sexualidade

Shore diz, em sua experiência, que há dois obstáculos no autismo e sexualidade, para uma pessoa no espectro ser sexual.

Em primeiro lugar está em perceber o interesse de um parceiro por sexo. Dessa forma, quando uma pessoa em um encontro fazia investidas sexuais, ele muitas vezes não as percebia.

As sensações

Entretanto, assim que começou a entendê-las, um segundo obstáculo apareceu: ele gostava de sexo, mas achava as sensações difíceis. Muitas vezes, a sua namorada precisava permanecer parada enquanto ele esperava que as sensações passassem.

Os sons e as sensações da intimidade física podem ser difíceis para algumas pessoas com autismo. E isso dificulta muito o entendimento sobre a relação do autismo e sexualidade.

Autismo e sexualidade: a dificuldade das mulheres

Em um estudo de 2015, Barnett descobriu que, para algumas mulheres com autismo, essas sensibilidades manifestam-se como espasmos musculares vaginais, conhecidos como vaginismo. Dessa forma, a penetração se tornava dolorosa ou impossível.

“Como [a penetração] é considerada o padrão para o sexo heterossexual em nossa população, algumas delas sentiam a obrigação de proporcionar prazer sexual aos seus parceiros. Porém, sentiam esse coito doloroso”, diz Barnett.

O desconhecimento do vaginismo

Algumas mulheres com autismo não percebem que o vaginismo é uma preocupação comum e podem considerá-lo um revés pessoal. Em vez disso, ela diz, elas precisam usar linguagem explícita para descrever o seu desconforto.

 “Às vezes, você só precisa dizer, ‘sexo vaginal não vai rolar’, e negociar outras atividades que você possa fazer por prazer sexual e relaxamento.”

A dificuldade dos limites do autismo e sexualidade

Isso pode ser mais fácil de ser dito do que ser feito, no entanto. No estudo da University College London, os pesquisadores descobriram que muitas mulheres tinham dificuldades para articular os seus desejos e limites sexuais.

Encontros indesejados

Metade das mulheres disse ter concordado com encontros sexuais indesejados porque queriam sentir-se aceitas, receber afeição ou porque achavam que eram obrigadas a se apresentar sexualmente em um relacionamento.

Inegavelmente, esses padrões também são verdadeiros para muitas mulheres neurotípicas. Mas as mulheres no espectro podem ser menos propensas a se defenderem. Decerto, isso complica mais a forma como as pessoas veem o autismo e sexualidade.

Fatores da sexualidade saudável

A sexualidade saudável baseia-se em três fatores – função psicológica e física positiva, uma visão de apoio de si e uma forte base de conhecimento, de acordo com Shana Nichols, diretora do Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento da ASPIRE, em Long Island, Nova Iorque.

1º fator

O primeiro fator vem naturalmente para as pessoas com autismo que se sentem positivas sobre a sua função sexual.

E homens com características mais brandas do autismo relatam os mais altos níveis de desejo sexual, desempenho, satisfação e assertividade, particularmente quando estão em um relacionamento.

2º fator

O segundo fator tem a ver com a autoaceitação e o amor próprio. Para algumas pessoas com autismo, o romance pode promover essa visão positiva de si. Contudo, para outros, pode levar à conclusão de que a vida é mais bem vivida sozinha.

A experiência de Dave

Cinco anos atrás, Dave matriculou-se em aulas de dança de salão e começou a praticar a interação com mulheres. Agora ele diz que se sente confortável em torno de suas parceiras de dança e gosta de socializar com elas.

“A chave é não se preocupar tanto com a forma como alguém responde a mim, mas sim eu estar bem na forma como estou respondendo a eles”, ele diz. “Outros percebem que eu me sinto bem comigo mesmo e isso atrai as pessoas.”

O segredo que Dave descobriu

Dave insiste que não está mais procurando ativamente o romance. Sendo assim, ele diz que prefere manter as suas parceiras de dança a uma distância segura e platônica.

“Eu acho que um dos erros que as pessoas cometem, incluindo eu mesmo, é achar que têm que encontrar alguém para serem satisfeitos”, ele diz. “Um relacionamento consigo mesmo é realmente tudo.”

3º fator

Quando se trata do terceiro fator – conhecimento do sexo – as pessoas com autismo geralmente têm pouca informação sobre as doenças sexualmente transmissíveis, os contraceptivos e os comportamentos sexuais.

O pouco que sabem tende a ser aprendido principalmente por meio dos programas de televisão, pela pornografia ou pela internet.

A diferença que há entre neurotípicos, autismo e sexualidade na educação

As pessoas neurotípicas, por outro lado, geralmente aprendem sobre sexo com amigos, pais ou professores. E isso é uma das complicações da visão problemática da relação entre autismo e sexualidade.

Dave diz que costumava pensar que o sexo definia um relacionamento e ele não estava particularmente interessado em comprometer esse ponto.

“Quando você não tem muita experiência sexual, você tende a valorizar isso mais do que realmente deveria”, ele diz. “Eu pensava que, a menos que estivesse tendo essas experiências, não conseguiria nada fora de um relacionamento.”

Depois de trabalhar com o seu terapeuta, ele entendeu que os relacionamentos românticos podem significar coisas diferentes, dependendo dos interesses, desejos e necessidades de cada parceiro.

Lado escuro

Muitos pais sentem-se obrigados a educar os seus adolescentes em relação à sexualidade, mas precisam de aconselhamento especializado, de acordo com uma pesquisa de 2016.

Uma visão assustadora do autismo e sexualidade

No ano passado, pesquisadores da Universidade de Cardiff, no País de Gales, descobriram uma fonte desse melindre: embora os estudos de sexualidade saudável sejam poucos e espaçados, existem mais de 5.000 estudos publicados ligando o autismo a comportamentos inadequados, como perseguição, carícias públicas ou obsessões sexuais.

Um olhar mais atento a 42 desses estudos revela que esses problemas muitas vezes surgem em pessoas com autismo severo, talvez devido à dificuldade de perceber quando outras pessoas se sentem desconfortáveis.

As mudanças da puberdade e a dificuldade do autismo e sexualidade

Comportamentos problemáticos também tendem a surgir em crianças que são pegas de surpresa pelas mudanças físicas da puberdade. Consequentemente isso acaba levando os pesquisadores a propor que a educação sexual pode ajudar a evitar a má conduta.

Ainda assim, as principais aulas de educação sexual podem não atender às necessidades dos alunos com autismo. E, tudo isso em conjunto, piora essa relação do autismo e sexualidade.

Uma nova realidade

Um programa na Holanda, chamado Tackling Teenage Training (Lidando com o Treinamento na Adolescência, em tradução livre), individualiza a educação sexual para os jovens com autismo.

Adolescentes matriculados têm sessões de aconselhamento privado toda semana por cerca de seis meses. As sessões concentram-se em áreas como sexo seguro, respeito aos limites e preferências sexuais.

Um pequeno ensaio clínico no início deste ano descobriu que o programa ajuda os adolescentes com autismo a melhorar o seu conhecimento sexual. De forma que os ajudam a criar confiança e prevenir comportamentos inadequados. Um ano após a conclusão do programa, os adolescentes mostraram melhorias no conhecimento sexual, comportamento social e comportamento sexual problemático.

Autismo e sexualidade: os perigos da exploração sexual

Programas de educação sexual também podem ajudar a reduzir as taxas alarmantes de exploração sexual de pessoas com autismo.

Os pesquisadores da University College London descobriram uma “alta incidência chocante” de vulnerabilidade sexual: 9 das 14 mulheres no estudo tinham histórico de abuso sexual e 3 foram estupradas por um estranho.

Relacionamentos abusivos

Além disso, mais da metade das mulheres sentiram-se presas em um relacionamento abusivo em algum momento das suas vidas.

As mulheres também disseram que a incerteza sobre as normas sociais e os problemas em detectar “estranhezas” ou bandeiras vermelhas as tornam vulneráveis ​​à exploração sexual.

Como ver a relação do autismo e sexualidade de forma saudável

Além de proteger os comportamentos desviantes e vulneráveis, esses programas visam guiar as pessoas com autismo em direção aos relacionamentos fortes e satisfatórios.

Logo, essas informações mostram ainda mais a importância de abordar a temática do autismo e sexualidade de forma saudável.

“Por vezes, o romance floresce sem treinamento formal”, diz Nichols, “especialmente para as pessoas como Shore, que são naturalmente motivadas a perceber pistas sociais sutis”.

“É a maior conscientização – a consciência social dos outros e também de si mesmo – que é realmente importante”, diz Nichols, “E o parceiro certo é um enorme passo.”

A “escolha” de Shore

Shore lembra-se do momento em que percebeu que Liu era a pessoa certa. Enquanto ele a levava pela cidade em uma manhã, na primavera de 1989, Liu olhou para ele e disse que sentia que já eram casados.

“Eu pensei sobre isso e percebi que ela estava certa”, ele diz. Naquele momento, segundo ele, eles ficaram noivos – sem um anel de diamante, se ajoelhar na frente do outro ou outras armadilhas de uma proposta de casamento tradicional. “Era um novo território, levando o nosso relacionamento a um novo nível”, lembra Shore. “Foi muito animador.”

Expectativas e experiências

Shore casou-se com uma colega música, algo que ele sempre esperou que fizesse. Mas Liu cresceu na China, o que derrubou a suposição de que ele se casaria com alguém que compartilhasse as suas tradições e os costumes da Nova Inglaterra. Ele percebeu que não importava que essa expectativa não se concretizasse.

Na tarde de 10 de junho de 1990, cerca de 150 amigos e familiares reuniram-se em Cape Cod, Massachusetts, para celebrar o casamento de Shore e Liu. O casal trocou votos cerca de 65 quilômetros da costa, onde haviam trocado o seu primeiro beijo.

A responsabilidade de abordar a temática do autismo e sexualidade

Dessa forma, fica bastante claro que há uma enorme responsabilidade em abordar o tema de autismo e sexualidade.

Romper com preconceitos e buscar enxergar o mundo pelos outros do outro é essencial para que possamos mudar uma realidade que muitas vezes é cruel.

Portanto, espero que esse artigo tenha te ajudado em algumas dúvidas sobre o autismo e sexualidade. E, caso você queira acrescentar algo, deixe aqui embaixo o seu comentário.

Se você é pai ou mãe de um adolescente com autismo, talvez o nosso curso de Análise do Comportamento para pais possa te interessar bastante. Nele, você aprenderá diversos módulos importantes e estratégias práticas. Como, por exemplo, entender os problemas de comportamento.


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